Ser mãe e dona de casa em outro país

Quais são os desafios de seguir a carreira do marido em outro país

Fazia tempo que um texto não provocava isso em mim: lágrimas. Não lágrimas quaisquer, mas lágrimas de soluçar e de mal conseguir me equilibrar para levantar da cama  – eu leio textos assim que acordo – e fazer o café da manhã das minhas filhas. Ninguém levou lanche pra escola nesse dia, não fui capaz de prepará-los…

Mas afinal, que texto foi esse? Deixo o link aqui para quem quiser, mas resumidamente, trata-se do relato de um homem brasileiro, que abandonou uma bem sucedida carreira, para acompanhar a esposa em Cingapura, onde ela recebeu uma oferta de trabalho irrecusável. Ele tornou-se então “dono de casa” e pai em tempo integral, em um país do outro lado do mundo.

O texto exalta as qualidades do homem, seu altruísmo em suportar a mulher, suas angústias e dificuldades, suas quebras de paradigmas, bla, bla, bla…. Ele está escrevendo um livro sobre a “aventura” que será publicado em breve e disse que tem até convites para um filme de cinema, com sua história! Ele é descrito como um herói.

Nada contra heróis, aliás, nada contra esse homem, que fique claro.

Mas inevitavelmente, revi minha própria história. Um novo capítulo começou no dia 23 de dezembro de 2014, quando cheguei com malas e cuias nos EUA. Vieram roupas e sapatos, fotografias e louças, mas a Gabriela que fui um dia, ficou. Aqui, assim que pisei, perdi minha identidade. Literalmente. Porque deixei de ser a Gabriela Albuquerque (meu nome de solteira e pelo qual sou conhecida no Brasil) e passei a ser a Gabriela Silva (um nome que sempre me foi estranho).

As novidades e ajustes foram tantos, e tão difíceis no primeiro momento, que mergulhei de cabeça na inédita tarefa: mãe e dona de casa em tempo integral. Não haviam mais cursos universitários, mais projetos de trabalho, mais cafés com as amigas e nem ensaios de flamenco. Tudo era, arrumar a casa, fazer o jantar e cuidar da saúde emocional das minhas duas filhas adolescentes, que sofreram um bocado.

A solidão de um inverno americano, pode enlouquecer. Principalmente pela primeira vez: dias curtos, frio cortante, ruas vazias e muita escuridão. Logo de cara, meu marido, envolvido até a alma com seu novo desafio profissional, passou a fazer inúmeras viagens. Muitas delas para o Brasil, onde ele conseguia recarregar a sua energia de sol e família. A mim sempre coube ficar, cuidar das meninas, resolver problemas escolares, de saúde, de adaptação.

Lembro que eu, sozinha, tive que encarar uma nevasca logo no início, dirigindo apavorada para não me atrasar em pegar as crianças em seu primeiro dia de aula. Tive que negociar, e ouvir desaforos inesquecíveis, do funcionário do condado, quando fiz a matrícula da minha filha mais velha. Sem entender direito o que estavam me dizendo e sem conseguir encontrar palavras para responder à altura.

Elas chegavam da escola todos os dias, com lágrimas nos olhos, sofreram bullying e demoraram muito a serem aceitas nas escolas que estavam. Eu tinha que engolir minha própria solidão, ser mais forte e incentivar uma coragem que nem eu tinha.

O primeiro inverno, definitivamente, não me deixou nenhuma saudades!

As coisas, aos poucos, foram se acomodando. A escola ficou mais fácil, os dias clarearam e fui devagar recolhendo meus cacos. Me apaixonei por Washington. Tantos museus, tantas possibilidades. O dinheiro era curto, mas a cidade tem uma das mais vastas e gratuitas ofertas de atividade cultural que já vi. Mergulhei em cursos gratuitos, voluntariei, estudei…. Conheci imigrantes mulheres de todos os lugares, pobres e ricas. Em comum, muitas delas como eu, seguindo seus maridos.

A casa, para quem não está acostumado, parece um organismo vivo. Louças e roupas se multiplicam. A grama e as folhas entopem o jardim e a neve do inverno, vira lama. O trabalho não tem fim, é árduo, e mão de obra para serviços domésticos é caríssima – com justiça!

Então tudo isso sobra para quem? Para aqueles que tem mais “tempo”, que ficam em casa. Assim, sem querer e nem pensar, assumi um emprego – não remunerado – de 24 horas por sete dias na semana. Entre as minhas tarefas estão culinária, costura, jardinagem, motorista, faxineira, organizadora, compradora, cuidadora de cachorro, enfermeira, psicóloga, mecânica, etc. No meio desse bolo, me espremo para escrever (aqui meu blog pessoal), para estudar e para dar voz ao que sobrou de mim.

São tantas como eu, nesse mundão, e também dentro do próprio Brasil. Não me lembro de ter visto nenhum texto as exaltando, ou chamando-as de heroínas, muito menos com possibilidades de livros e filmes. A sociedade, como um todo, já espera que sejamos nós a assumir esse papel. E aí vem o segundo ponto da história, que para mim dói mais: quando me sinto exausta e reclamo, ouço com frequência: mas porque você não faz alguma coisa? Mas porque você não vai atrás de um “trabalho”? Como se somente um trabalho fora, tivesse valor. Herança desse mundo patriarcal e capitalista, onde somente interessam lucros e produtividade.

Tive a felicidade de passar 15 dias em Maui, no Havaí. Conheci um homem, que com a minha idade dá aulas de surfe e cria seus filhos. Ele aparenta pelo menos uns 20 anos a menos. Fez uma escolha e parece estar muito bem, obrigado! Não me iludo e sei que não é para todos, mas me pergunto, esse modelo de “TEM que ser Profissional”, bem sucedido (a), carreirista, é também para todos?

Acho que o trabalho doméstico “feminino” é invisível, menosprezado e desvalorizado. E é esperado que seja feito – quase sempre – pela mulher. Nessa corrida da vida e sucesso, é inegável que a linha de partida não é a mesma para ambos os gêneros.

Eu e meu marido nos conhecemos na faculdade e nossas trajetórias não poderiam ser mais diferentes. Ele, aos 46 anos, no topo da sua carreira e eu aos 42, correndo para preparar o jantar. Evidente que houveram méritos e conquistas da parte dele, resultantes de uma incrível força de vontade, que talvez eu não tive. Mas com muita franqueza, as oportunidades e condições de trabalho, nunca foram iguais.

Entretanto há vantagens imensuráveis! Ouvi de minha filha, dia desses, como ela é mais feliz aqui, mesmo com saudades de tudo no Brasil. O motivo? Estamos muito mais próximas. E doeu fundo quando ela disse, que tudo que faço por ela hoje, quem fazia no Brasil, era a Marcia (nossa ajudante doméstica) e que muitas vezes ela sentia que a Marcia é que era a mãe dela….

A verdade é, ser mãe em tempo integral implica em cuidar do material humano mais precioso de nossas vidas, nossa família. Por que nos sentimos então tão diminuídas de nossas escolhas? Por que somos tão cobradas e vistas como “menores”?

Minha teoria: a nossa sociedade não tem por hábito valorizar os “ossos” que seguram a estrutura. O que importa e brilha aos olhos é sempre o acabamento. Somos nós, mulheres e donas de casa, os alicerces, os encanamentos, que carregam esse edifício inteiro….

Um exemplo do que quero dizer: estivemos em um jantar de amigos recentemente. No bate-papo, super-agradável, meu marido contava suas descobertas pela Ásia, as comidas que experimentou, as novidades que viu em algumas das suas várias viagens de trabalho. Todos se admiram, todos param para escutar. Enquanto ele estava na Ásia, tendo reuniões com engravatados e happy hours, eu estava em uma cidade estranha, sem falar direito inglês, lidando com o portão da garagem que não abria, enquanto minha filha ardia em febre e eu não sabia o que fazer. Eu estava sozinha, perdida no supermercado entre tantos pacotes de macarrão, eu escrevia o que precisava dizer para professora fria e despreparada da minha filha, e depois colocava no Google tradutor para tentar decorar em inglês e ser capaz de me fazer entender. Essas foram minhas grandes aventuras!

Nessas horas sempre me calo, não tenho o que dizer, porque sei que ninguém se interessaria pelas minhas conquistas: “nossa consegui manipular o soprador de folhas e limpar o jardim” (podem rir, mas esse dia fiquei realmente feliz!) O que é ordinário e essencial é chato, desprezível, e é dessa maneira, que ainda em 2018, tratamos o trabalho de nossas mulheres. Inclusive de mulheres para mulheres, como ouvi em uma reunião de contribuição profissional para latinas!

Por falar nisso, fui mais uma vez à marcha das mulheres. Histórico, emocionante, inspirador! Tantas questões abordadas, tanta luta e vontade de virar a página. Me senti energizada e cheia de coragem, uma pontinha de esperança. Será que um dia deixaremos de ser essa força invisível que só é lembrada em anúncios clichês de dia das mães?

Entenderam as lágrimas?

Fim do artigo. Deixe seu comentário abaixo.

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Com formação em Letras, pela Universidade de São Paulo, Gabriela sempre foi apaixonada por literatura e todas as formas de expressões artísticas. Morando em Seattle, nos Estados Unidos, ela se dedica à escrita com um olhar mais atento sobre questões que envolvem os desafios de viver longe do Brasil, sempre com a preocupação de manter viva a identidade cultural brasileira.