“Sou mãe brasileira e meus filhos não falam português. Eu falhei.”

O texto que segue abaixo é um depoimento pessoal de uma mãe brasileira morando nos Estados Unidos.

Quando meus filhos nasceram, eu falava em português com eles quando estávamos sozinhos e em inglês quando estávamos com pessoas que não entendiam o português. Achei que isto era o correto e o mais educado a se fazer. Meu marido é americano e todos os nossos parentes e amigos aqui, mesmo os brasileiros, falam inglês. A medida que meus filhos foram crescendo, fui me acostumando a falar com eles mais em inglês do que em português.

Não queria que eles se sentissem diferentes, então me aderi ao modelo de “mãe americana”, porque os amo e achei que isto seria o melhor para eles. Passei a falar quase só em inglês com eles, com exceção de algumas palavras e frases. Pensei no presente e deixei o futuro para depois. Pensei apenas no que ia fazer com que nos sentissemos iguais aos outros americanos ao nosso arredor. Até que um dia eu me dei conta de que falhei.

Eu até tentei reintroduzir o português quando eles já estavam alfabetizados em inglês. Tentei duas vezes: primeiro com a minha primeira filha e depois com o meu filho mais novo. Eles não se interessavam, não sentiam nenhuma conexão com o idioma. Eu desisti. Naquela época, não ouvíamos falar sobre benefícios e vantagens em ser bilíngüe, e eu não me dei conta da oportunidade que estávamos perdendo.

Agora vejo como muitas crianças crescem bilíngues e como a aprendizagem de dois idiomas ao mesmo tempo ocorre naturalmente quando iniciada desde o nascimento da criança. Sou professora de middle school e percebo no dia a dia como as crianças bilíngues aprendem com mais facilidade e alcançam melhores notas do que as crianças monolíngues. Além disto, estas crianças mantêm laços familiares bem sólidos com os avós e a família imediata do pai, da mãe, ou ambos, que na maioria dos casos, são de outro país.

Meus filhos têm uma mãe brasileira e uma família imensa no Brasil e eles não falam português. Agora que são adolescentes, eles me culpam por eu não ter ensinado o meu idioma nativo pra eles. Eu os culpo por não terem se interessado em aprender. Foi recentemente que realmente percebi o tamanho do impacto que isto causou na vida deles: nenhum dos meus filhos desenvolveram um relacionamento afetivo com os avós, tios e primos no Brasil. Passear no Brasil se tornou, pra eles, uma tortura.

Eu não entendia esta reação, pois no Brasil toda a minha família os mimam e os tratam super bem. Até que, no ano passado, na nossa última viagem por lá, minha filha mais velha (16 anos) me disse: “Mom, I spent my whole life not being able to talk to my grandparents and my family here in Brazil. How do you think I feel? I feel stupid and I feel excluded.”

Ouvir da minha filha que ela se sentia “burra e excluída” por não conseguir se comunicar com seus avós e parentes no Brasil me doeu profundamente. Principalmente porque meus filhos perderam os avós paternos americanos muito cedo e os avós e tios brasileiros, de certa forma, deixaram de fazer parte da infância deles, por minha falta de consciência.

Eu me sinto muito culpada e sinto que falhei como mãe. Tenho tido muitos problemas com minha filha, parte deles é porque ela me culpa, dizendo que eu a exclui da vida dos parentes no Brasil por não tê-la ensinado português quando pequena. Ela se sente um pouco bloqueada para aprender o idioma depois de mais crescida, se sente insegura. Às vezes me diz que não sabe quem ela é.

A pergunta que meus filhos mais detestam que os façam é “Where is your mom from?”. Eles sabem, que depois que respondem “From Brazil”, as pessoas sempre perguntam “Do you speak Portuguese?”

Eles se sentem envergonhados de responder que não falam português. Para eles, adolescentes, cada vez que respondem “Not really, I only understand a little bit..” é como se estivessem respondendo “I’m not smart enough to know how to speak Portuguese.”

Quando minha filha era pequena, ela parecia apenas tímida ao me ouvir falando em português com outras pessoas. Só hoje, depois de crescida, é que ela me disse que se sentiu a vida toda excluída de uma parte da minha vida e se sente como se parte da sua infância tivesse sido roubada. Tenho notado um pouco desta revolta no meu filho mais novo também.

É muito difícil pra mim perceber como meus filhos se sentem por eu não ter ensinado o português pra eles quando pequenos, por não ter criado eles bilíngues. Se pudesse voltar atrás no tempo, eu voltaria.

Terapia tem ajudado minha filha a lidar com este sentimento de “exclusão” e a enfrentar o bloqueio que sente em aprender o português agora. Ela até animou a pegar umas classes particulares de português. Acho que estamos juntas tentando entender uma a outra. Espero que um dia ela possa superar esta mágoa que sente de mim e entender que errei querendo fazer o bem. Assumo que errei e estou aqui para nos unir e ajudá-la a superar estes sentimentos negativos.

Eu só resolvi escrever este texto e contar a minha história para servir de alerta a outras mães e pais brasileiros no exterior. Ensinar o seu idioma nativo pros seus filhos é muito importante, gente! Não percam a oportunidade de fazer isto enquanto seus filhos são pequenos. Quanto crescerem podem lhes culpar por não terem aprendido, assim como os meus me culpam hoje.

A autora do depoimento acima entrou em contato com a ABC Multicultural, após ler este blog post. Ela pediu que sua história fosse contada, mas que ela não fosse identificada para manter a privacidade de seus filhos.

— The End —

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